Como criar personagens em 7 passos

Quem pesquisa como criar personagens costuma encontrar listas de traços, mas um personagem de livro começa por três decisões: o que ele quer, o que o impede de conseguir e em que ele está enganado. Depois dê a ele um passado que explique esse engano, uma voz própria e teste tudo em uma cena. Aparência e biografia completa entram por último, só quando a história precisar.

Os sete passos abaixo seguem essa ordem. Eles servem para o protagonista e, em versão curta, para qualquer personagem com nome.

Por que começar pelo desejo, e não pela aparência?

Porque o enredo é feito do que os personagens tentam fazer. Um personagem que quer algo concreto gera cenas sozinho: ele age, alguém resiste, a situação muda. Um personagem com olhos verdes, signo e comida favorita ainda não gera nenhuma.

Muitos autores iniciantes travam justamente aqui. Passam dias montando perfis detalhados e, na hora de escrever, descobrem que o personagem não tem o que fazer na página. Inverter a ordem resolve boa parte desse problema: primeiro a função dramática, depois os detalhes que a sustentam.

Como criar personagens, passo a passo

1. Defina a função dele na história

Antes de qualquer traço, decida para que o personagem existe no livro. Ele conduz a trama, como o protagonista? Se opõe a ela, como o antagonista? Ajuda, atrapalha, revela uma informação, serve de espelho?

A função diz quanto espaço o personagem merece. Um aliado que aparece em três cenas não precisa da mesma construção que a pessoa cuja escolha encerra o livro.

2. Dê a ele um desejo concreto e um obstáculo

O desejo precisa ser específico o bastante para ser perseguido e negado: passar no concurso, encontrar a irmã, vender a casa da família antes do leilão. "Ser feliz" ou "encontrar seu lugar" são direções, não objetivos; para virarem trama, precisam de um objeto visível.

Junto com o desejo, decida o que fica no caminho. Pode ser outra pessoa, uma regra, uma circunstância ou o próprio personagem. Sem obstáculo, o desejo se realiza na primeira cena e a história acaba.

3. Encontre a falha que gera conflito interno

Uma distinção comum em manuais de escrita separa o que o personagem quer do que ele precisa entender. O desejo é externo. A necessidade costuma estar ligada a uma crença errada: "só vou ser respeitado se nunca pedir ajuda", "quem ama não discute".

Quando o desejo e a crença errada puxam para lados opostos, você tem conflito interno sem precisar anunciá-lo. O personagem tenta conseguir o que quer usando justamente o comportamento que o atrapalha. Essa tensão costuma ser o eixo do arco do personagem: ele muda, ou se recusa a mudar e paga o preço.

4. Escolha um passado que explique a falha

Você não precisa de uma biografia completa. Precisa de um ou dois acontecimentos anteriores à primeira página que expliquem por que o personagem acredita no que acredita. Uma crença errada com origem parece uma pessoa; sem origem, parece um diagnóstico.

Registre esse passado em poucas linhas e deixe que ele apareça no comportamento. Se ele precisar entrar no texto de forma explícita, um flashback curto e bem posicionado costuma funcionar melhor do que páginas de explicação no primeiro capítulo.

5. Construa a voz

Voz é como o personagem fala e, em primeira pessoa ou em ponto de vista próximo, como ele pensa. Defina dois ou três hábitos concretos: frases curtas ou longas, um assunto que ele evita, o registro em que se refugia quando está nervoso, palavras que ele nunca usaria.

Um teste rápido: escreva uma fala sem atribuição e veja se dá para saber quem disse. Se qualquer personagem pudesse dizê-la, a voz ainda não está definida.

6. Teste o personagem em uma cena

Antes de completar qualquer ficha, coloque o personagem em uma situação de pressão e veja o que ele faz. Escolha algo pequeno: uma discussão, um pedido que ele precisa recusar, uma notícia ruim no meio do trabalho.

A cena mostra o que o planejamento esconde. Às vezes o personagem reage de um jeito que contradiz o que você decidiu. Quando isso acontece, vale considerar que a cena está certa e ajustar a construção, em vez de forçar o texto a obedecer ao plano.

7. Registre as decisões e mantenha a consistência

Depois do teste, anote o que ficou decidido: nome e apelidos, função, desejo, obstáculo, crença errada, acontecimento formador e voz. A ficha de personagem é o formato prático para isso, com campos curtos e um critério para saber o que pular.

O registro existe para evitar contradições ao longo do rascunho, como o personagem que tem medo de altura no capítulo 3 e escala um prédio sem hesitar no capítulo 20, sem que nada tenha mudado. Revise as anotações ao fim de cada capítulo e atualize o que as cenas corrigiram.

Quanto aprofundar cada personagem?

O romancista E. M. Forster, em Aspectos do romance (1927), separou os personagens em planos, construídos em torno de uma única ideia, e redondos, capazes de surpreender o leitor de forma convincente. Os dois tipos têm lugar no mesmo livro. O erro é dar profundidade a quem não precisa e deixar raso quem decide a trama.

Personagem O que construir Passos que costumam bastar
Protagonista Desejo, obstáculo, falha, passado, voz, arco completo Todos os sete
Antagonista Desejo próprio, não só "impedir o herói", e uma lógica que ele considera justa Todos os sete
Personagens secundários importantes Função, desejo que colide com o do protagonista, um traço de voz 1, 2, 5 e 7
Figurantes Função e um detalhe que os distinga 1 e 7

Para quem quer mais profundidade em um personagem principal que continua raso, a ficha de personagem traz as três dimensões de Lajos Egri: fisiologia, sociologia e psicologia.

Exemplo: um personagem criado com os sete passos

Veja o método aplicado a uma personagem inventada para um romance contemporâneo:

Passo Decisão
Função Protagonista
Desejo Reabrir a padaria do pai, fechada há dois anos, antes que o prédio seja vendido
Obstáculo A irmã mais velha, sócia do imóvel, quer vender e dividir o dinheiro
Crença errada "Se eu pedir ajuda, provo que não sou capaz"
Passado Foi a única dos filhos que não trabalhou na padaria, e o pai nunca a ensinou a fazer pão
Voz Responde perguntas com outras perguntas; fala de números quando quer evitar sentimentos
Cena de teste Um fornecedor antigo do pai oferece ajuda de graça, e ela recusa

Em sete linhas, a personagem já tem um conflito externo com a irmã, um conflito interno que a faz recusar justamente o que precisa e uma voz reconhecível. A cor dos olhos dela ainda não importa, e talvez nunca importe.

Erros comuns ao criar personagens

Erro O que acontece no texto Como corrigir
Começar pela aparência O personagem é descrito, mas não age Defina desejo e obstáculo antes de qualquer traço físico
Personagem perfeito Sem falha, não há conflito interno nem arco Dê a ele uma crença errada que atrapalhe o próprio objetivo
Passado contado de uma vez O primeiro capítulo vira biografia e a trama demora a começar Mostre o passado pelo comportamento e guarde a explicação
Todos falam igual Os diálogos dependem de "disse Fulano" para fazer sentido Dê a cada personagem principal dois ou três hábitos de fala
Personagem que só reage As coisas acontecem com ele e a trama anda por coincidência Faça as escolhas dele causarem a cena seguinte
Traços que mudam sem motivo O leitor percebe a incoerência e para de confiar no texto Registre as decisões e revise as anotações a cada capítulo

Como o Writer Studio ajuda você

No Writer Studio, cada personagem é um verbete da Wiki do livro, guardado no mesmo projeto que o manuscrito. O verbete começa com nome e papel (Protagonista, Antagonista, Coadjuvante ou Figurante), e você pode acrescentar nomes alternativos, um resumo e uma descrição completa. Se quiser aprofundar, há três seções recolhíveis de fisiologia, sociologia e psicologia, segundo a tradição de Egri.

Para o passo 7, o editor destaca no texto os nomes e apelidos que conhece, e um clique confirma a presença do personagem na cena. Nas Propriedades do verbete, a lista Aparece em mostra todas as cenas em que ele está, o que ajuda a conferir se um traço se mantém do capítulo 3 ao 20 (Personagens e locais). Se você quiser acompanhar o arco de um personagem cena a cena, pode registrá-lo como uma linha narrativa.

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Próximo passo

Escolha o personagem principal do seu livro e responda, em uma linha cada, aos passos 2 e 3: o que ele quer, o que o impede e em que está enganado. Se as três respostas puxarem em direções diferentes, escreva a cena de teste ainda hoje. Para outros papéis e arquétipos, veja a seção personagens e arquétipos.