Ficha de personagem: modelo prático

Uma ficha de personagem é um conjunto fixo de campos que você preenche para cada personagem, para não precisar redecidir quem ele é no meio do rascunho. A versão que costuma ajudar mais é curta: nome, papel, o que o personagem quer, o que ele entende errado, o que o impede e como ele fala. O resto é profundidade opcional, acrescentada quando uma cena pede.

Abaixo está o modelo e, depois, a parte que muitos modelos deixam de fora: quais campos mudam o que você escreve e quais só parecem produtivos.

Quais campos uma ficha de personagem precisa ter?

Dez campos, a maioria de uma linha só.

Campo O que escrever Por que vale a pena
Nome e apelidos Nome completo e todos os apelidos e formas curtas que os outros personagens usam Evita que a Ana do capítulo 2 vire Aninha no capítulo 14 sem você decidir isso
Papel Protagonista, antagonista, aliado, coadjuvante, figurante Mostra quanto espaço na história o personagem merece
Resumo de uma linha Quem ele é, em uma frase que você diria em voz alta Se a frase não sai, talvez você ainda tenha só uma função, não um personagem
Objetivo A meta concreta que ele persegue em cena Um desejo que só gera sentimentos raramente gera trama
Crença errada Aquilo em que ele está enganado sobre si ou sobre o mundo Costuma ser o eixo do arco do personagem
Obstáculo Quem ou o que fica entre ele e o objetivo Boa parte do trabalho com personagens é trabalho com a oposição
Contradição Um traço que discute com outro Sem contradição, a ficha lembra um currículo
Voz Dois ou três hábitos de fala: frases curtas ou longas, o que ele nunca diz, o registro em que se refugia Ajuda a distinguir as falas sem depender de "disse Fulano"
Acontecimento formador Algo que aconteceu antes da primeira página e ainda cobra um preço Dá uma origem à crença errada, em vez de um diagnóstico
Primeira aparição A cena em que o leitor o conhece e o que essa cena mostra sobre ele A apresentação cria expectativas que o resto do livro tende a cobrar

Um bom ponto de partida: preencha os quatro primeiros campos para todo personagem com nome e os dez para quem toma decisões que mudam a trama.

O par objetivo e crença errada é a versão curta de uma distinção comum em manuais de escrita, entre o que o personagem quer e o que ele precisa entender. Quando os dois puxam para lados opostos, você tem conflito interno sem precisar anunciá-lo.

Como aprofundar um personagem que continua raso

Se um personagem principal segue sem vida depois desses dez campos, um caminho tradicional é o do dramaturgo e professor Lajos Egri, em The Art of Dramatic Writing: descrever o personagem em três dimensões em vez de uma.

  • Fisiologia: idade, corpo, saúde, qualquer traço físico que a história possa usar. Não é um retrato. Uma perna machucada que decide o que o personagem consegue fazer em uma fuga é fisiologia útil; a cor do cabelo raramente é.
  • Sociologia: classe, trabalho, família, religião, a quem ele deve satisfações. Em muitos personagens rasos, é esta a camada que falta, porque ela ajuda a definir o que o personagem se permite querer.
  • Psicologia: ambições, medos, temperamento, a linha moral que ele não cruza até o livro obrigá-lo.

O valor não está em completar tudo. Passar pelas três dimensões costuma revelar um fato específico, como uma dívida, um irmão ou um emprego odiado, que rende uma cena que você ainda não tinha.

Que campos parecem úteis e costumam não ser?

Muitos modelos que circulam na internet trazem dezenas de perguntas, e respondê-las todas parece trabalho. Na prática, boa parte não chega ao texto.

Cor dos olhos, data de aniversário, comida favorita, signo, árvore genealógica completa de alguém que aparece em quatro cenas: em geral, nada disso muda uma frase do rascunho, a não ser que a trama dependa disso. O teste é simples: uma resposta diferente neste campo mudaria alguma coisa na página? Se não, pule. Um detalhe inventado na ficha e nunca usado tende a ser encaixado à força depois, e é daí que surgem parágrafos como "ela ajeitou os cabelos castanhos".

Duas armadilhas a mais: descrever o físico em detalhe antes de saber o que o personagem faz e escrever o passado dele como narrativa. Uma página de infância em prosa é uma cena escrita no lugar errado. Uma linha na ficha basta, porque o leitor vai conhecer esse passado pelo comportamento.

Como preencher a ficha sem travar

Dê a cada personagem principal uns vinte minutos, não uma tarde. Preencha os dez campos rápido e aceite respostas provisórias. O objetivo é ter decidido algo antes de escrever, não acertar tudo de primeira.

Depois, trate a ficha como um documento vivo. Ao terminar cada capítulo, pergunte se o personagem fez algo que a ficha não previa. Se fez, muitas vezes a cena está certa e a ficha está desatualizada. Fichas mantidas assim tendem a continuar úteis; fichas escritas uma vez e esquecidas costumam ficar velhas nos primeiros capítulos.

Dois testes ajudam quando o rascunho já está andando:

  • Teste da troca. Dê uma fala de um personagem a outro. Se ela continua funcionando, o campo de voz ainda não está fazendo seu trabalho.
  • Teste do objetivo. Para cada personagem principal, diga o que ele persegue no capítulo atual. Um personagem sem objetivo ativo pode explicar um meio de livro arrastado.

Para figurantes, três linhas dão conta: nome, função e um hábito que o distinga. Fichas completas para o elenco inteiro costumam ser procrastinação com cara de planejamento.

Vale dar ao antagonista a mesma ficha do protagonista, com objetivo próprio. Se o único objetivo dele for "impedir o herói", a oposição tende a ficar rasa; veja antagonista para entender por que ele não precisa ser um vilão.

Onde a ficha deve ficar

Uma ficha só ajuda se estiver aberta enquanto você escreve. Em um documento separado, ela vira arquivo morto: você para de abri-la justamente quando começa a precisar dela e, na segunda versão, acaba procurando no manuscrito o que tinha decidido.

Manter a ficha perto do texto também ajuda na continuidade. Quando ela fica ao lado das cenas, perguntas como "em quais capítulos essa personagem aparece?" têm resposta sem busca manual pelo nome, o que pesa principalmente na revisão, quando você está cortando.

Como o Writer Studio ajuda você

No Writer Studio, cada personagem é um verbete da Wiki do livro, então a ficha fica na mesma janela que o manuscrito. O verbete tem nome, nomes alternativos, resumo, descrição completa e um papel: Protagonista, Antagonista, Coadjuvante ou Figurante. Para o aprofundamento, há três seções recolhíveis, fisiologia, sociologia e psicologia, segundo a tradição de Egri, com campos estruturados como idade, ocupação e motivação; elas ficam recolhidas até você preenchê-las, e um nome e um papel bastam para começar.

Se o seu modelo tem campos próprios, como crença errada ou voz, você pode acrescentá-los ao tipo Personagem pelo Gerenciador de tipos. Cada campo novo aparece vazio em todos os personagens existentes, sem alterar o que já está escrito (Tipos de verbete).

Os nomes alternativos fazem o trabalho de continuidade: o editor destaca os nomes que conhece no texto, e um clique transforma uma menção em presença confirmada. Nas Propriedades do verbete, a lista Aparece em mostra todas as cenas em que o personagem está confirmado, e você pode abrir qualquer uma delas. Detalhes em Personagens e locais.

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Por onde começar

Copie os dez campos, preencha os quatro primeiros para todo personagem com nome e os dez para os três ou quatro personagens cujas escolhas movem o livro. Depois, comece a escrever: a ficha fica precisa ao ser corrigida pelas cenas reais, não ao ficar mais longa.

Se um protagonista continua fora de foco, o problema costuma ser estrutural, não biográfico: confira quem faz pressão sobre ele. Para outros personagens e papéis, veja a seção personagens e arquétipos.