Enredo

Enredo é a sequência de acontecimentos de uma narrativa, organizados de modo que cada um nasça do anterior. Não é um amontoado de episódios: é a forma dada a eles para que construam algo. Por isso o enredo de um livro se resume como uma cadeia (“ela perde o emprego, então aceita o serviço, mas o cliente é o irmão dela”) e não como uma lista.

O que forma um enredo

Quase todo enredo reúne quatro ingredientes: um personagem que quer algo, um obstáculo, escolhas que custam alguma coisa e um ponto em que o conflito se decide. O protagonista fornece o desejo; a oposição, em geral encarnada no antagonista, fornece o atrito. Sem os dois, o que existe é uma situação, não um enredo.

O modelo mais conhecido de partes tem cinco etapas, derivadas da análise do drama feita por Gustav Freytag no século XIX:

Parte O que faz
Exposição Apresenta personagem, mundo e a normalidade que será quebrada
Ação crescente Complica o conflito, com obstáculos cada vez maiores
Clímax Decide o conflito central
Ação decrescente Mostra as consequências do que foi decidido
Desfecho Estabelece a nova situação

Trate a tabela como mapa, não como regra. Muitos livros abrem já no meio da ação crescente, comprimem a ação decrescente em uma página ou seguram a exposição para mais tarde. As partes descrevem o que costuma estar presente, não a ordem em que você precisa escrever.

Enredo e história não são a mesma coisa

Na linguagem comum as duas palavras se misturam, mas na teoria da narrativa elas se separam. A história é tudo o que aconteceu, em ordem cronológica, inclusive o que ocorreu antes da primeira página. O enredo é o recorte e a ordem escolhidos pelo autor, e é nele que o leitor vive o livro.

Dom Casmurro (Machado de Assis, 1899) mostra a diferença: o livro começa com o narrador já maduro, explicando como ganhou o apelido, e só depois volta à juventude e ao amor por Capitu. Cronologicamente, a juventude vem primeiro. No enredo, vem primeiro o homem que precisa justificar-se, e isso muda o modo como lemos cada lembrança. Voltar no tempo dentro de uma cena é outra ferramenta do mesmo tipo, o flashback.

Tipos de enredo

Há séculos escritores tentam contar quantos enredos existem, e as contagens não batem, sinal de que são lentes e não leis. Uma classificação moderna conhecida é a de Christopher Booker em The Seven Basic Plots (2004), que propõe sete tipos.

Tipo (Booker) Movimento central
Vencer o monstro Uma ameaça paira sobre uma comunidade e o protagonista a enfrenta
Dos trapos à riqueza Alguém diminuído sobe, perde tudo e sobe de novo em termos mais verdadeiros
A busca Uma jornada rumo a um objetivo, definida pelos obstáculos do caminho
Viagem e retorno Entrada num mundo estranho e volta para casa transformado
Comédia Confusão e mal-entendidos que se resolvem em união
Tragédia Uma falha leva o protagonista à queda
Renascimento Um personagem preso a um estado sombrio é libertado para outro

Cinderela é a ilustração clássica de dos trapos à riqueza; Alice no País das Maravilhas e As viagens de Gulliver ilustram viagem e retorno, com um protagonista lançado num mundo estranho e devolvido ao fim; Romeu e Julieta é uma tragédia. Essas categorias servem para uma coisa: indicar o que o leitor vai esperar quando o formato ficar reconhecível. Numa busca, ele espera obstáculos crescentes; num renascimento, alguém que se liberta. Conhecer a expectativa permite cumpri-la ou frustrá-la de propósito. Escolher um tipo numa lista e escrever em cima dele, porém, gera um molde, não uma história.

Como encontrar o enredo de uma história

Seja para resumir um livro que você leu, seja para entender o que o seu rascunho está fazendo, cinco perguntas bastam:

  1. Quem quer algo? Nomeie o protagonista.
  2. O que ele quer, concretamente? Não “felicidade”, e sim um objetivo que possa ser ganho ou perdido.
  3. O que está no caminho? A oposição pode ser uma pessoa, uma circunstância ou o próprio personagem.
  4. O que decide a questão? A cena em que o conflito se resolve para um lado ou para o outro.
  5. O que é diferente no fim?

Ligue as respostas com então e mas, não com e depois. Se todas as juntas do seu resumo são “e depois”, você tem uma cronologia, e esse costuma ser o diagnóstico real por trás de “o meio do meu livro se arrasta”. Quando precisar apresentar o enredo a um agente ou editor, o formato é a sinopse, que conta o desfecho em vez de insinuá-lo.

Erros comuns

Erro Por que enfraquece Como corrigir
Estrutura episódica As cenas se sucedem sem causar umas às outras Faça o resultado de cada cena criar o problema da seguinte
Protagonista passivo As coisas acontecem com ele e nada está em jogo nas escolhas Dê a ele decisões com custo, inclusive decisões erradas
Exposição despejada no início Informação demais antes de haver motivo para se importar Comece perto da ruptura e distribua o passado onde ele faz falta
Objetivo que não pode fracassar Se o êxito é certo, nada gera tensão Defina com exatidão o que o fracasso custaria
Subtramas sem relação com a principal Parecem interrupções, não pressão Faça a subtrama complicar a escolha central, ou torne-a contraponto de propósito

Como o Writer Studio ajuda a enxergar o enredo

O enredo é uma propriedade da sequência, o que dificulta vê-lo de dentro de uma única cena: a cadeia de causas é justamente o que um texto corrido esconde. No Writer Studio, o livro é uma árvore de cenas, que você pode agrupar em capítulos e partes, então a ordem é algo que se inspeciona e se reorganiza, não uma posição de rolagem. Cada fio da trama pode virar uma linha narrativa na Wiki do livro: uma lista ordenada das cenas que o conduzem, com status Apresentada, Desenvolvida, Em pausa ou Resolvida. Uma subtrama que deixa de importar por oitenta páginas passa a ser algo que você lê numa lista, em vez de algo que sente sem saber localizar. A Grade de enredo completa o quadro, com as cenas nas linhas e as suas linhas narrativas nas colunas. Ela mostra o que você de fato construiu; julgar se o enredo é bom continua sendo trabalho seu.

O Writer Studio está em fase alfa.

Se os acontecimentos do seu rascunho parecem uma lista e não uma cadeia, o caminho mais curto é vê-los como uma sequência que você pode reordenar: monte as linhas narrativas do seu livro no Writer Studio.

Leituras relacionadas

O enredo é o arranjo; as páginas abaixo tratam de quem o move e de como ele é contado: